Crescimento da participação feminina nos negócios contrasta com dificuldades de acesso a crédito, mercados, inovação e redes de apoio
O empreendedorismo feminino vem ganhando cada vez mais espaço no Brasil. Dados apresentados por especialistas apontam que a participação das mulheres nos pequenos negócios cresceu 30% nos últimos dez anos e alcançou um recorde na série histórica. Apesar do avanço, empreendedoras ainda enfrentam obstáculos para acessar crédito, ampliar mercados, inovar e conciliar a atividade profissional com as responsabilidades familiares.
Segundo Ana Fontes, fundadora e CEO da Rede Mulher Empreendedora (RME), metade dos pequenos negócios no país é liderada por mulheres. Para ela, o fortalecimento dessas empreendedoras também produz efeitos sobre outras mulheres e familiares, já que, quando conseguem ampliar seus negócios e contratar funcionários, muitas acabam gerando oportunidades dentro da própria rede de convivência.
Entre os principais desafios está o acesso ao capital. Linhas de crédito, microcrédito, fundos de investimento e investidores-anjo ainda são pouco acessíveis para uma parcela significativa das empreendedoras. Na avaliação de Fontes, ampliar os mecanismos que conectam mulheres a recursos financeiros pode fazer diferença na capacidade de crescimento dos negócios.
Outro ponto importante é a necessidade de redes de apoio. De acordo com a especialista, cerca de 70% das empreendedoras brasileiras começaram a empreender após a maternidade. Em muitos casos, a busca pela autonomia e pela flexibilidade de horários surge justamente diante das dificuldades encontradas no mercado de trabalho tradicional.
Esse contexto reforça a importância de estruturas que permitam às mulheres administrar seus negócios sem deixar de lado as responsabilidades familiares. A falta de locais seguros para deixar os filhos e de tempo para lidar com questões pessoais e familiares ainda pesa sobre a rotina de muitas empreendedoras. As mulheres, segundo os dados apresentados pela RME, respondem por cerca de 80% da chamada economia do cuidado.
Inovação e acesso a mercados ainda são desafios
A presença feminina também permanece concentrada em setores como moda, beleza, alimentação e prestação de serviços. Para Ana Fontes, não há problema nessa concentração, mas é necessário ampliar as oportunidades para que as mulheres possam inovar e crescer dentro dessas próprias áreas e também conquistar espaço em segmentos tradicionalmente menos ocupados por elas.
A especialista destaca que fatores sociais e culturais ainda influenciam as escolhas profissionais das mulheres. Ao mesmo tempo, esse cenário vem mudando, com um número crescente de empreendedoras buscando novas possibilidades de atuação e inovação.
O acesso aos mercados é outro obstáculo. Muitas mulheres conseguem desenvolver produtos e serviços, mas encontram dificuldades para alcançar consumidores e estabelecer canais de comercialização. Plataformas digitais e marketplaces aparecem como uma das alternativas para ampliar essa conexão.
Um exemplo está na Shopee. Segundo dados apresentados pela empresa, 51% das contas ativas de vendedores no marketplace no Brasil pertencem a mulheres. O percentual é próximo da participação feminina entre os empreendedores brasileiros, estimada em 52%.
A jornada, no entanto, muitas vezes é individual. Entre as mais de 500 vendedoras inscritas no Prêmio Mulheres do Ano 2026, promovido pela Shopee em parceria com a RME, 84% não possuem sócios.
Empreender por necessidade também pode abrir novas oportunidades
A entrada das mulheres no empreendedorismo nem sempre começa como uma escolha planejada. Segundo Ana Fontes, muitas começam por necessidade, especialmente diante da falta de oportunidades no mercado de trabalho e das dificuldades enfrentadas por mães.
Com o passar do tempo, porém, o negócio pode deixar de ser apenas uma alternativa de renda e se transformar em uma oportunidade de crescimento, autonomia financeira e realização profissional.
Cerca de 55% das empreendedoras sustentam suas famílias com a renda obtida por meio do próprio negócio. O dado mostra a importância da atividade empreendedora feminina não apenas para a economia, mas também para a manutenção de milhares de famílias.
O avanço registrado nos últimos anos demonstra que as mulheres estão ocupando cada vez mais espaço no ambiente empresarial brasileiro. Ao mesmo tempo, os desafios mostram que crescer no empreendedorismo ainda depende de condições que vão além da iniciativa individual.
Ampliar o acesso ao crédito, fortalecer redes de apoio, facilitar a entrada em novos mercados e aproximar as empreendedoras de ambientes de inovação são caminhos apontados para que esse crescimento seja acompanhado por mais oportunidades e sustentabilidade.
Mais do que aumentar o número de mulheres empreendendo, o desafio agora é criar condições para que elas possam crescer, inovar e transformar seus negócios em fontes duradouras de renda e autonomia.













